
Jorge Jardim, que por essa altura tinha em curso uma campanha internacional de promoção de Moçambique, acaba por ceder. Carmo foi aceitar o prémio. Um ano depois, por exigência do pai, foi mesmo fazer um curso de combate com as forças especiais. Era a condição para poder fazer o que ela tanto desejava: acompanhá-lo numa missão secreta.
E conseguiu mesmo. Em 1973 foi com o pai a Lusaka, na Zâmbia, naquele que seria o plano mais importante e arriscado na vida de Jorge Jardim. Um plano que, mais tarde, o iria condenar ao isolamento.
Com a revolução de 1974, tudo mudou para a família Jardim. Jorge Jardim, que estava em Lisboa no dia 25 de abril, é alvo de um mandado de captura por parte do novo poder revolucionário e impedido de entrar em Moçambique. A mulher e parte das filhas saem do território rumo ao vizinho Malawi, antes de finalmente viajarem para Portugal. Carmo Jardim e duas das irmãs são as últimas a abandonar Moçambique, já em dezembro de 1974.
“Nós não somos retornados, como toda a gente nos chama. Não é verdade. Quanto muito, podem chamar-nos de ‘refugiados’, porque nós pertencíamos a Moçambique. Nós éramos moçambicanos, de alma e coração. Muitos nasceram lá, metade da minha família nasceu em Moçambique. Portanto, éramos todos moçambicanos. Éramos portugueses porque éramos portugueses, porque Moçambique era uma colónia de Portugal. Mas, na realidade, nós éramos moçambicanos. Sentíamos Moçambique como moçambicanos.”
Depois de abandonar Moçambique, Carmo ainda foi para a África do Sul com o irmão Carlos Frederico para cumprir o sonho de tirar o curso de piloto de aviação comercial, que não chegou a acabar. O pai tentou convencê-la a regressar à Europa, mas Carmo queria continuar em África. Começou por trabalhar como rececionista de um banco, passou depois a secretária. Em 1977 entrou no mundo automóvel: trabalhou primeiro como relações públicas na FIAT da África do Sul, até aceitar finalmente um convite para ir para a Europa.
Em 1978 torna-se na primeira mulher vendedora de automóveis em Portugal. Desse tempo, uma história ficou famosa entre os colegas homens: o dia em que apareceu equipada para um jogo de futebol de salão e levou as irmãs a fazer de equipa técnica, com direito a treinadora e massagista. Continuou a carreira no setor e chegou a relações públicas da Autoeuropa, cargo que ocupou até se reformar.
Carmo Jardim nunca perdeu a ligação a Moçambique. Apesar de as irmãs só terem conseguido voltar em 1995, mais de 20 anos depois de terem sido forçadas a abandonar o território. Em 2003, fundou mesmo uma organização, a “SIM — Solidariedade Internacional a Moçambique”, que se dedica a projetos de desenvolvimento e promoção da educação, em especial na ilha do Bazaruto. E garante: “Eu sou moçambicana de alma e coração e penso Moçambique como moçambicana. Continuarei sempre a pensar como poderei ajudar Moçambique.”
Depois da vinda para Portugal, foram várias as irmãs Jardim que se destacaram no panorama social. Entre elas, a mais conhecida é Cinha Jardim. Maria da Graça, ou “Gracinha” — de onde vem o diminutivo pelo qual é hoje conhecida — é a nona dos treze irmãos. Tinha 18 anos quando a família Jardim teve de deixar Moçambique.
No final dos anos 80 casou-se com Raul Leitão, conhecido empresário do Porto, e desse casamento nasceram as suas duas filhas: Catarina Jardim Leitão, mais conhecida por “Pimpinha”, e ainda “Isaurinha”, cujo nome de registo é Carolina Jardim Leitão. Acabaria por se divorciar nos anos 90 e por ter uma relação mediática com o político Pedro Santana Lopes, antigo líder do PSD e atual presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, com quem esteve 7 anos. Anos mais tarde, uma relação com o milionário norte-americano William Hasselberg iria igualmente chamar a atenção das revistas.
A atenção social levou-a também à televisão. Em 2017, chegou mesmo a participar no programa “Big Brother Famosos”, e ficou conhecida como a “Tia” mais famosa do país. Hoje em dia continua presente na televisão, como comentadora de reality shows e de assuntos do social.
Outras irmãs, como “Mituxa” ou “Xenica” Jardim, aparecem também com frequência nas revistas do social. Mas, afinal, como se chamam verdadeiramente? E como adoptaram estes nomes? Patucha Jardim diz que alguns terão surgido por influência do pai, que achava graça a que não soubessem o verdadeiro nome das filhas. Tornavam-se quase até como nomes de código de agentes secretos, um mundo que Jorge Jardim conhecia por dentro. “Ele gostava, porque de repente já ninguém sabia ao certo como é que nós nos chamávamos realmente. E, a partir de certa altura, nós próprias é que já fazíamos muita questão que não soubessem como é que nos chamávamos. Passou a ser quase como uma brincadeira.”
“O Misterioso Engenheiro Jardim” é o novo Podcast Plus do Observador. Conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music]. Os assinantes Standard e Premium têm acesso antecipado a todos os episódios.
Estreia. “O Misterioso Engenheiro Jardim”. Episódio 1: Uma foto vai salvar-lhe a vida